Por Eduardo Martins

Uma conversa sobre museus

Publicado sexta-feira, janeiro 19, 2018

Nelson Luis Colás é Diretor de Relações Institucionais da Feambra (Federação de Amigos de Museus do Brasil), é representante titular no Comitê Gestor do Sistema Brasileiro de Museus (IBRAM), criou e produziu o “Guia para Criação e Gestão de Associações de Amigos de Museus”, é administrador de empresas, foi sócio-diretor da Agência de Comunicações Teamway, tendo como clientes Mercedes, Procter & Gamble, Microsoft e outras tantas, foi Gerente de Marketing da Nielsen, planejou, desenvolveu e implantou na área de marketing 12 campanhas publicitárias, participou da produção de comerciais para TV/cinemas e anúncios de revistas e tem uma pergunta na cabeça: por que o brasileiro vai tão pouco a museus?

Colás e fatos históricos. (Imagem Ehder de Souza)

Colás e fatos históricos. (Imagem Ehder de Souza)

Após meia hora de conversa, e consultando os dados disponíveis de um escasso material há muito defasado, a conclusão a que se chega é que ninguém sabe de nada com certeza. E o que não se sabe não é a resposta – é o fato em si: afinal, brasileiro vai muito a museu ou não vai?

Colás, inicialmente, atribui a fatos históricos a baixa procura, mas comemora quando confrontado com números que sobe milhões a cada ano. O IBRAM realizou sua última Pesquisa Anual de Museus em 2014 e nela já se verificava uma crescente demanda de visitantes e criação de novos espaços ano a ano. O relatório final da pesquisa denominada “O “não público” dos Museus: levantamento estatístico sobre o “não ir” a Museus no Distrito Federal”, conduzida em 2012 pela Coordenação de Pesquisa e Inovação Museal do Departamento de Processos Museais do IBRAM, credita como um dos fatores da não ida de mais pessoas a museus à baixa escolaridade, mas admite que é necessário pesquisar mais profundamente a relação entre escolarização, renda e não frequentação desses ambientes.

E chega à seguinte conclusão:

“Para a elaboração de políticas públicas voltadas para aumentar a visitação a museus, é imprescindível compreender os mecanismos sociais que inibem a frequentação a museus. A mera ampliação da divulgação não é capaz de desmontar esses mecanismos sociais operantes na baixa escolarização e renda, estímulos mais específicos são necessários para a superação desses limites sociais. Política públicas que produzem impactos em nível macrossocial, como aumento da escolarização e renda de segmentos sociais subalternos, devem ser concomitantes com ações em nível microssocial, como por exemplo, programas de integração entre as colas e museus para poderem ter o efeito de fornecer os recursos simbólicos necessários para a fruição de bens culturais musealizados”.

Isso foi em 2012. E nem é necessário perguntar se algo foi feito a respeito dessa recomendação.

Mas o fato é que em alguns grandes centros as filas para visitar museus e centros culturais tem se tornado constante quando se oferece algo com qualidade, mas também é preciso avaliar a qualidade da visita – afinal, o brasileiro vai ver exposições interessado nas obras ou para tirar “selfie”?

Convidei Nelson Colás para conversarmos sobre esses assuntos e o resultado pode ser conhecido abaixo:

Vamos falar sobre o seu diagnóstico: a razão da baixa procura de brasileiros por Museus em relação a outros países e os motivos que você acha que existem para justificar isso.

A Fiambra já existe há muitos anos e de 10 anos pra cá, mais ou menos, a gente começou a perceber a grande preocupação não só dos museus, mas de todo mundo que está em volta, sobre essa famosa pergunta: por que o brasileiro não vai a museus, coisa que aflige um pouco a gente.

Falando um pouco de História, a gente sabe que o Brasil é muito novo. Se a gente for comparar com o resto é um País ainda em evolução. A própria sociedade brasileira também não passou por grandes traumas como Europa, Estados Unidos, África e isso fez com que a gente fosse aprendendo aos poucos, esse sentido de preservação do patrimônio. No Brasil essa preservação ainda é um pouco difícil. Esse é o fator histórico.

Outro fator que a gente aponta também é o fator de oferta/procura. Pesquisa feita pelo IBRAM, de 2010, 78% dos 5.500 municípios brasileiros não tem museu. Essa oferta também não colabora para criar o hábito do brasileiro ir a museus.  Então a gente está incentivando também a importância de se comunicar o que tem lá dentro com uma linguagem acessível. Os Museus começaram a mudar nos últimos 10 anos essa linguagem para mostrar o que tem lá dentro de uma maneira que todos entendam.

Então esses são os grandes motivos que a gente tem para essa baixa procura de museus. Essa nossa educação ainda é precária, nossa educação patrimonial ainda é precária.

Mas achei uma pesquisa do IBRAM de 2014 sobre o total geral de visitações informadas de museus: em 2012 foram 13 milhões; em 2013 foram 15 milhões. Não são números bons? (N.R.: ver os dados por Aqui).

Bom eu contei a primeira fase. Agora vem a fase 2 que é o lado bom da coisa, o lado positivo do que está acontecendo. Nos últimos 10 anos começou a despertar essa procura para conhecer museus. O IBRAM está fazendo uma pesquisa de novo para ver quantos museus têm no Brasil. Hoje é difícil você obter dados concretos para fazer esse diagnóstico.  A partir de 2010, por aí, aquelas duas grandes exposições que tiveram em São Paulo, que foram Monet e Rodin, explodiu aqui. Filas para exposições de uma maneira extraordinária. Isso vem aumentando. O Centro Cultural do Banco do Brasil, tanto do Rio, São Paulo e Brasília, levaram mais de 2 milhões de pessoas. Há três anos, com aquela exposição de impressionistas, o Centro Cultural do BB levou 3,5 milhões de pessoas. Se você pensar que o Museu que tem mais visitação, que é o Museu da China, o Museu Nacional, levou 7,5 milhões, não é tão ruim, não é tão desanimador não. É um dado extremamente positivo. Deixa a gente contente. O Museu do Amanhã levou 1 milhão e tantos; o Museu da Imagem e do Som, aqui de São Paulo, quase 500 mil visitas, o MASP tradicional 400 mil, o Museu Imperial de Petrópolis 370 mil, então são dados extremamente positivos. Parece que essas coisas vão se quebrando um pouco.

Canoa sobre o Epte, de Monet, uma das obras expostas no MASP.

Canoa sobre o Epte, de Monet, uma das obras expostas no MASP.

Mas há um aspecto interessante para analisar. Há 20 anos, quando começaram a chegar as exposições de grandes artistas, havia filas para visita-las e hoje elas são ainda maiores. Só que quando você entra e analisa o ambiente interno você tem a impressão de que a maioria das pessoas está lá para tirar “selfie”, não para apreciar as obras. Essa impressão está certa ou está errada?

É uma visão muito interessante. Mas se você pensar que o importante é ir e comunicar alguma coisa, para tirar “selfie”, pra bater papo, pra tirar sarro, pra meter o pau, pra discutir, eu acho que é válido. Até que quando você tira “selfie” e coloca nas redes sociais alguém vai ver você dentro do museu. Isso é uma forma de propaganda, sem conteúdo, isso eu concordo. Eu me lembro muitas vezes quando tinha ópera aqui em SP, ou música clássica no Teatro Municipal, aquelas grandes apresentações, tinha muita gente que ia lá, sentava, e a primeira que falava era: “escuta, nós vamos jantar aonde quando sair daqui?”. Então isso era mais uma coisa de “status” do que qualquer outra coisa. Acho que cabe a nós e a todo mundo explicar o quanto é bacana você ir a museus, sob qualquer aspecto.

Aspecto importante analisar. Há 20 anos havia filas, hoje são maiores. Só que quando você entra e analisa o ambiente interno você tem a impressão de que a maioria das pessoas estão lá para tirar selfie, não para apreciar as obras. Essa impressão está certa ou está errada?

É uma visão muito interessante. Mas se você pensar que o importante é ir e comunicar alguma coisa, pra tirar selfie, pra bater papo, pra tirar sarro, pra meter o pau, pra discutir, eu acho que é válido. Até que quando você tira selfie e coloca nas redes sociais alguém vai ver você dentro do museu. Isso é uma forma de propaganda, sem conteúdo, isso eu concordo. Eu me lembro muitas vezes quando tinha ópera aqui em SP, ou música clássica no Teatro Municipal, aquelas grandes apresentações, tinha muita gente que ia lá, sentava, e a primeira que falavam era “escuta, nós vamos jantar aonde quando sair daqui?”. Então isso era mais uma coisa de “status” do que qualquer outra coisa. Acho que cabe a nós e a todo mundo explicar o quanto é bacana você ir a museus, sob qualquer aspecto.

Creio que deveria se entabular uma pesquisa, até para orientar melhor e não haver só visita por visita. Já vi pessoa tirar foto ao lado de um quadro da Djanira e nem olhar pro quadro. O quadro não interessava – interessava era outra pessoa tirando sua fotografia naquele quadro que ele achou bonito e tal …. então a qualidade da visita era uma coisa que se poderia mensurar até para depois você trabalhar em cima disso.

Olha, você tem toda razão nisso, sabe. Eu estava conversando com um amigo meu que é fanático pelo MASP e ele falou: “Nelson, eu estou ficando velho. Fala pro museus aumentarem um pouco o que está escrito do lado porque eu não consigo enxergar. Eu comentei com alguns amigos ligados a museus e disseram que “isso é meio padrão aqui”. Então acho que essa educação começa, como você falou, a ter um pouco mais de qualidade na explicação que os visitantes vão ter. Essa é uma linguagem tão particular … você pega aquelas inscrições na porta do museu e é a mesma coisa que se você for no médico e o médico fala tecnicamente o que você tem. Minha formação é de administração, marketing e propaganda – se a gente for discutir por termos, a metade é inglês, com siglas, com nomes que ninguém vai entender.

Tem havido crescimento anual de abertura de novos museus. Pena que os dados vão até 2014, mas de 1981 a 1990 foram abertos 132 museus; de 1991 a 2000, 199; de 2001 a 2010, 292 museus. É bastante, não?

Bastante, e isso é muito bom e volto a dizer. A gente tem um pouco de deficiência de pesquisa que ajudaria a você tomar certas providências. Tanto o Ibram como a Secretaria de Cultura aqui de São Paulo estão fazendo pesquisas diretamente com os meus para registrar direitinho todas as informações. Então você tem razão, os dados são favoráveis, está havendo essa percepção, está tendo muita troca de informação, e isso é muito importante. Os dados são favoráveis e muito animadores.

Calás fala sobre criação de Associações dos Amigos dos Museus

 

Até porque o preço dos ingressos não é caro. A maioria custa R$ 5, no máximo 10. Então a discussão que deve haver é como atrair as escolas. Fazer com que a criança que frequenta escolas frequente museus. E aí coloco um ponto para reflexão de que sempre leio que as escolas precisam se aproximar dos museus. E eu pergunto: porque os museus não vão se aproximar das escolas? Por que eles não fazem ações dentro das escolas para despertar o desejo de alunos visitarem museus? Eu não me lembro de nenhuma ação parecida com essa. Você conhece alguma?

Não conheço, mas ontem estava conversando com artista plástica e ele estava comentando isso. Porque não se leva um caminhão para as escolas… A gente tem que ir aonde o povo está. E realmente a gente já teve algumas conversas de levar uma parte virtual de museus nas escolas. Hoje é dia é mais fácil. Você viu uma campanha de museu em Amsterdã, onde puseram a reprodução das obras de museus naquela passarela de mala de aeroporto? Então você tá pegando a mala e lá tem o que você vai ver no museu. É uma ideia genial. Nós conversamos muito de fazer alguns programas de museus aqui em São Paulo, vou lá no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte faça uma filmagem e leva nas escolas. É muita gente pra visitar pouco museu. É uma ideia perfeita, eu acredito que tenha patrocinador para isso.

Para o assinante está disponível a integra, em áudio, da conversa com Nelson Calás.

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Para conhecer o levantamento do IBRAM de 2014 clique Aqui.

Para conhecer a pesquisa sobre o “Não público nos Museus” clique Aqui.